Sem exotismos ou folclorismos

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Data: 20/03/2008 08:29:17 [1576 Palavras]
Publicação: Gazeta Mercantil [até 30/05/2009] (Brasil)
Idioma: Português-Brasil
Autor: Gazeta Mercantil

Rio, 20 de Março de 2008 - Se as putas de Gabriel García Márquez são tristes, as de Roberto Bolaño são assassinas. As personagens não poderiam ser mais diferentes; e as diferenças entre os dois autores também não.
Na trajetória como escritor - prematuramente interrompida pela morte em 14 de julho de 2003, aos 50 anos, enquanto esperava por um transplante de fígado - Bolaño não apenas rompeu com a paralisia que o boom de autores latino-americanos havia imposto à literatura de língua espanhola como deu um enorme passo de qualidade e inventividade.
Um passo além de García Márquez, Mario Vargas Llosa ou Carlos Fuentes, para citar só três nomes de maior prestígio. Os temas do escritor chileno são basicamente os mesmos desses autores - a ditadura, o exílio, a épica do fracasso - porém reformulados de maneira original e bastante pessoal.
É bom lembrar que Bolaño jamais apelou para o exotismo ou o folclorismo. Mas tampouco planejou destruir os escritores do boom. Não foi um sobrinho que tinha ganas de matar o tio. Em 1999, no diário El Mundo, de Madri, escreveu um artigo no qual apontava quatro pérolas da literatura sul-americana do século XX: as novelas curtas "Ninguém Escreve ao Coronel", de García Márquez; "Os Filhotes", de Vargas Llosa; "El Lugar Sin Límites", de José Donoso; e "O Perseguidor", de Julio Cortazar.
Início como poeta
Roberto Bolaño publicou em vida dez romances e duas coletâneas de contos. E um pequeno livro de poemas, "Reinventando el Amor", escrito no México, na década de 70, pouco antes de mudar-se para a Espanha. Aliás, sempre se considerou um poeta, mas passou a escrever prosa depois do nascimento do primeiro filho, Lautaro, a fim de lhe garantir o futuro.
Aos poucos, suas obras passaram a ser notadas. O romance "La Literatura Nazi en América", de 1994, é uma espécie de enciclopédia de autores ultradireitistas, entre eles dois brasileiros: o pensador católico Luiz Fontaine de Souza e o contista frustrado Amado Couto. Este integrou o Esquadrão da Morte e ficou ainda mais frustrado quando, aderindo ao gênero policial, resolveu ser um continuador de Rubem Fonseca (!). A novela "Estrella Distante", de 1996, publicada pela prestigiosa editora espanhola Anagrama, de Jorge Herralde, é considerada por Alan Pauls o seu melhor livro. O último, o tremendo "2666", de mais de mil páginas, foi deixado incompleto e engloba várias de suas influências, da vanguarda européia aos reality shows.
Biografia agitada
Vila-Matas disse que a morte de Bolaño fechou uma vida destinada a tornar-se lenda. Vila-Matas não pensava apenas na agitada biografia - nascido em Santiago , mudou-se para o México ainda criança, voltou à terra natal depois do golpe que derrubou Allende em 1973, foi preso, escapou, retornou ao México e de lá seguiu para a Europa, onde lavou pratos e foi vigia noturno de um camping - pensava sobretudo nas obras que deixou, as quais, de uma maneira ou de outra, abriram caminho para toda uma geração de novos autores hispano-americanos. No Brasil, onde a bolañomania está em fase de lua crescente, seus admiradores são Joca Reiners Terron (que traduziu alguns de seus poemas), Ronaldo Bressane, Xico Sá, Andréa Del Fuego. Além da crítica Flora Sussekind e do poeta Carlito Azevedo.
Até nos Estados Unidos, que costumam ser um país-avestruz em relação às novidades literárias, a onda bateu: a tradução da obra-prima "Os Detetives Selvagens", em abril do ano passado, arrebatou elogios da crítica, inclusive do exigente James Wood, do suplemento literário do New York Times.
A escritora Nicole Krauss comentou a descoberta: "Hoje, Roberto Bolaño é um dos meus escritores favoritos. Ler Bolaño me fez pensar que, em comparação, a literatura inglesa e americana estão mortas. Existe alguma coisa incrivelmente viva em seu trabalho, que supera qualquer livro escrito nos Estados Unidos".
Quando ainda estava internado no hospital Valle de Hebrón, em Barcelona, grafiteiros escreveram nos muros da cidade: "Un hígado para Bolaño!". Na internet, é impossível navegar pelas páginas literárias sem esbarrar no seu nome, posto nas alturas, ou com o rosto anguloso, ornado por enormes óculos redondos, a barba por fazer. Nas fotos, está sempre fumando. Parece triste.
Ano passado, a revista colombiana Semana elegeu os 100 melhores romances latino-americanos dos últimos 25 anos. Bolaño emplacou três obras entre as 15 primeiras: "Os Detetives Selvagens" em 3; "2666" em 4 e "Estrella" distante em 14. Nesse embalo, já advertiu Juan Villoro, o escritor corre o risco de converter-se em mito pop. Se já não é.
Mais livros em 2009
Por aqui, desde 1994 a Companhia das Letras vem publicando seus livros: "Noturno do Chile", "Os Detetives Selvagens", "A Pista de Gelo". Para o ano que vem, a editora pretende lançar mais dois romances: "Amuleto" e "2666".
Agora, sai "Putas Assassinas". Publicado pela primeira vez na Espanha em 2001, é uma coletânea de 13 contos. O do título é um relato "feminista e violento", segundo o próprio autor, e não há motivo para discordar dele. Nas outras histórias, circulam personagens tão díspares como um fotógrafo homossexual - o Olho Silva - que resolve combater sozinho a prostituição infantil na Índia, um narcotraficante espantosamente letrado, o filho de uma atriz pornô - o Lala Cura - um poeta herbívoro que se suicida, outro suicida, um fantasma, outro fantasma.
Um dos contos é, sem favor, um dos melhores textos já escritos sobre o mundo do futebol, que, na definição de Roberto Bolaño, é um esporte "estranho". Faz sentido: Bolaño é um craque da estranheza.
Em texto de intensa circulação na internet, Roberto Bolaño se permite algumas dicas sobre a arte de escrever contos, porque "já tenho 44 anos".
A primeira é: nunca escreva um conto de cada vez. Dessa maneira, corre-se o risco de escrever o mesmo conto até o dia da sua morte.
A segunda: o melhor é escrever os contos de três em três, ou de cinco em cinco. Se você tem energia suficiente, escreva-os de nove em nove, ou de 15 em 15.
(A propósito, no mesmo texto o escritor revela algumas de suas preferências entre os cultores da história curta: Quiroga, Felisberto Hernandez, Borges, Monterroso, García Márquez. "Não leiam nunca Cela nem Umbral", recomenda. "Leiam Tchecov e Raymond Carver, um dos dois é o melhor".)
A julgar por "Putas Assassinas, Bolaño tinha energia de sobra. Os relatos mostram um escritor em forma. São escritos na batida pauleira que o leitor brasileiro já conhece de "Os Detetives Selvagens" (Arturo Belano, o alter ego de Bolaño no romance, reaparece nos contos "O Olho Silva" e "Fotos").
Sua escritura, como definiu Alan Pauls numa entrevista, "nunca é forçada. Um modo magistral que tem um pé na espessura mais literária e outro nas entonações e ritmos da oralidade, na conversação, na anedota". É exatamente o que você vai encontrar no livro que chegou às livrarias semana passada.
As primeiras linhas capturam o leitor no ato. Exemplos: "Vejam como são as coisas: Maurício Silva, vulgo o Olho, sempre tentou escapar da violência, mesmo com o risco de ser considerado covarde, mas da violência, da verdadeira violência, não se pode escapar, pelo menos não nós, os nascidos na América Latina na década de 50, os que rondávamos os 20 anos quando morreu Salvador Allende." ("O Olho Silva")
"Fui a Gómez Palácio numa das piores épocas da minha vida. Tinha 23 anos e sabia que meus dias no México estavam contados." ("Gómez Palacio")
"Parece mentira, mas nasci no Bairro dos Empalados." ("Prefiguração de Lalo Cura").
"Tenho uma notícia boa e uma má. A boa é que existe vida (ou algo parecido) depois da morte. A má é que Jean-Claude Vileneuve é necrófilo." ("O retorno")
No meio da narrativa, outras armadilhas de prender. Exemplo:
"Este relato deveria acabar aqui, mas a vida é um pouco mais dura do que a literatura". ("Dias de 1978")
A história sobre futebol se chama "Buba"", que é o nome de um dos personagens. É dedicada a Juan Villoro (autor, entre outros, do livro "Dios Es Redondo", que deveria ganhar tradução, ao menos para que nossos atuais cronistas aprendam a escrever sobre futebol). Considerando as diferenças de estilo, o conto de Bolaño lembra outro relato em torno do esporte, "No tempo indeciso", de Javier Marías. Ambos, mais que de bola, tratam de exílio.
Um tema - o da difícil adaptação do jogador sul-americano no estrangeiro - tão próximo de nós, mas sobre o qual a literatura brasileira ainda não se debruçou. Deficiência ou desprezo?
O ponta-esquerda Acevedo, a promessa chilena que vai jogar num grande clube de Barcelona (não identificado mas que tem toda a pinta de ser o Barça), começa a perder noites em casas noturnas e a pular de cama em cama. Já vimos esse filme quantas vezes?
O engraçado é que Bolaño, que tinha uma visão única da literatura, estendeu esse olhar ao futebol. Numa entrevista contou que, em 1962, vivia em Quilpué, a 50 metros do lugar onde estava alojada a seleção brasileira, preparando-se para o Mundial do Chile: "Conheci Pelé, Garrincha, Vavá. Lembro de ter defendido um pênalti cobrado por Vavá. Esse foi meu maior feito".
Em outra ocasião, Bolaño definiu seu estilo literário à luz do futebol: "Um gol, se você não se chama Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo vulgar e muito descortês para com o goleiro adversário, a quem você não conhece nem lhe fez nada de mau. Mas um gol contra é um gesto de independência. Deixa claro, para seus companheiros e o público, que seu jogo é outro".
"Putas Assassinas" é um sensacional gol contra.
(Gazeta Mercantil/Fim de Semana - Pág. 3)(Álvaro Costa e Silva)